As oportunidades existem
sábado, 26 de janeiro de 2008
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Quase
Anderson Piva
“Uma coisa é um grande discurso,
outra coisa um grande amor”
(Sto. Agostinho)
O amor nasce velho em qualquer coração;
é fruto tardio
de ancestralidades feridas,
de descompassos hereditários,
do choro antigo das várias gerações,
resultado inebriante
dessa magia de converter lágrimas
numa quase-cachaça.
Todo amor nasce marcado
de lutas recentes, mas findas;
soldado conhecedor de cada canto
do seu campo de batalha,
dos requintes militares,
dos artifícios bélicos
da marcial arte de amar;
discípulo virado em mestre,
professor da triste ciência
de tornar sangue
num quase-veneno.
Todo amor nasce maduro.
Superada a longa seca,
a intempérie,
eis que surge indene
com a esperança perene
de uma vida
que é quase-renúncia.
Todo amor nasce morto,
já vivido, já cantado,
já doído, já amado.
Todo amor nasce duro,
escudo
de ancião experimentado,
que esconde um quase-menino
indefeso.
Todo amor nasce quase;
e se é todo, não o é.
Todo amor nasce pedra
perpétua, e perdura
na solidez de um silêncio
que é quase confissão.
Anderson Piva - Quase
“Uma coisa é um grande discurso,
outra coisa um grande amor”
(Sto. Agostinho)
O amor nasce velho em qualquer coração;
é fruto tardio
de ancestralidades feridas,
de descompassos hereditários,
do choro antigo das várias gerações,
resultado inebriante
dessa magia de converter lágrimas
numa quase-cachaça.
Todo amor nasce marcado
de lutas recentes, mas findas;
soldado conhecedor de cada canto
do seu campo de batalha,
dos requintes militares,
dos artifícios bélicos
da marcial arte de amar;
discípulo virado em mestre,
professor da triste ciência
de tornar sangue
num quase-veneno.
Todo amor nasce maduro.
Superada a longa seca,
a intempérie,
eis que surge indene
com a esperança perene
de uma vida
que é quase-renúncia.
Todo amor nasce morto,
já vivido, já cantado,
já doído, já amado.
Todo amor nasce duro,
escudo
de ancião experimentado,
que esconde um quase-menino
indefeso.
Todo amor nasce quase;
e se é todo, não o é.
Todo amor nasce pedra
perpétua, e perdura
na solidez de um silêncio
que é quase confissão.
Anderson Piva - Quase
domingo, 16 de dezembro de 2007
Abdicação
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
(Fernando Pessoa)
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
(Fernando Pessoa)
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Definido indefinido
A verdade do fruto é a árvore.
E parece que eu nunca saio de fruto
Nunca serei árvore
Sou esse griséu amarelo enverdecido
Um contraste com a natureza sã.
O potencial não é nada se não houver realização; É,
Algo que poderia ser belo, mas que existe estagnado.
Quando os deuses falam, os servos se calam;
Bastam-lhes os sacrílegos privilégios de pecar por vê-los e ouvirem tão sonora voz.
(sem comentário na classe)
Altivez
Como uma estrela cadente cruzando o céu ela passa,
E seu brilho tanto encanta que ofusca
À vontade de fazer o pedido.
Quando se apercebe, lembranças.
E vai, divina vida eterna, liberdade e perdão...
Como água límpida da fonte,
Imaleável, mansa e cristalina,
Em ondas na palma da mão
Que por entre os dedos escapa.
Assim ela passa pelo meu caminho
Abre-me meus olhos
Mostra-se-me luz
Passa e se esconde;
Vazio,
Escuridão!...
E parece que eu nunca saio de fruto
Nunca serei árvore
Sou esse griséu amarelo enverdecido
Um contraste com a natureza sã.
O potencial não é nada se não houver realização; É,
Algo que poderia ser belo, mas que existe estagnado.
Quando os deuses falam, os servos se calam;
Bastam-lhes os sacrílegos privilégios de pecar por vê-los e ouvirem tão sonora voz.
(sem comentário na classe)
Altivez
Como uma estrela cadente cruzando o céu ela passa,
E seu brilho tanto encanta que ofusca
À vontade de fazer o pedido.
Quando se apercebe, lembranças.
E vai, divina vida eterna, liberdade e perdão...
Como água límpida da fonte,
Imaleável, mansa e cristalina,
Em ondas na palma da mão
Que por entre os dedos escapa.
Assim ela passa pelo meu caminho
Abre-me meus olhos
Mostra-se-me luz
Passa e se esconde;
Vazio,
Escuridão!...
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