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As oportunidades existem

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Quase

Anderson Piva

“Uma coisa é um grande discurso,
outra coisa um grande amor”
(Sto. Agostinho)


O amor nasce velho em qualquer coração;
é fruto tardio
de ancestralidades feridas,
de descompassos hereditários,
do choro antigo das várias gerações,
resultado inebriante
dessa magia de converter lágrimas
numa quase-cachaça.
Todo amor nasce marcado
de lutas recentes, mas findas;
soldado conhecedor de cada canto
do seu campo de batalha,
dos requintes militares,
dos artifícios bélicos
da marcial arte de amar;
discípulo virado em mestre,
professor da triste ciência
de tornar sangue
num quase-veneno.
Todo amor nasce maduro.
Superada a longa seca,
a intempérie,
eis que surge indene
com a esperança perene
de uma vida
que é quase-renúncia.
Todo amor nasce morto,
já vivido, já cantado,
já doído, já amado.
Todo amor nasce duro,
escudo
de ancião experimentado,
que esconde um quase-menino
indefeso.
Todo amor nasce quase;
e se é todo, não o é.
Todo amor nasce pedra
perpétua, e perdura
na solidez de um silêncio
que é quase confissão.

Anderson Piva - Quase

domingo, 16 de dezembro de 2007

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Definido indefinido

A verdade do fruto é a árvore.
E parece que eu nunca saio de fruto
Nunca serei árvore
Sou esse griséu amarelo enverdecido
Um contraste com a natureza sã.
O potencial não é nada se não houver realização; É,
Algo que poderia ser belo, mas que existe estagnado.



Quando os deuses falam, os servos se calam;
Bastam-lhes os sacrílegos privilégios de pecar por vê-los e ouvirem tão sonora voz.

(sem comentário na classe)



Altivez

Como uma estrela cadente cruzando o céu ela passa,
E seu brilho tanto encanta que ofusca
À vontade de fazer o pedido.

Quando se apercebe, lembranças.

E vai, divina vida eterna, liberdade e perdão...

Como água límpida da fonte,
Imaleável, mansa e cristalina,
Em ondas na palma da mão
Que por entre os dedos escapa.


Assim ela passa pelo meu caminho
Abre-me meus olhos
Mostra-se-me luz
Passa e se esconde;
Vazio,
Escuridão!...

A imagem que eu amo

 

A imagem que eu amo

Veja como é linda!

Sol; seu nome é Sol.

Meus olhos pasmam, choram de tanto fascínio.

Pra mim, ela é pura beleza e mistério, como um sol nascente.

Repare nos olhos; que brilho!

Há uma luz que vem vindo, vindo, é como um imã atraindo algo

Do íntimo da minha alma para um encontro fatal;

Nesse infinito luminoso de complexa obscuridade...

E nesse cenário matizado por essa ansiedade deleitosa e de melancólica resignação

É onde o destino há de se cumprir.

Mas veja, há também uma alegria tão eloqüente,

Capaz de contagiar a paisagem com esplendores de felicidade,

Que todas as fases de dor se apagariam pelos espasmos de gozos.

Veja como ela é linda!

É minha angústia e meu bálsamo;

Mas também minha esperança de felicidade

É o sentido do meu amanhã

É a razão que me leva a todas as razões;

Acima de tudo ela é humana.

Puxa; Ela é mesmo muito linda! Divina.

Áah!!!...

A imagem que eu amo

Apelo

Ontem,

_ ah!

Meu corpo pedia para entender-se com teu corpo

Teu corpo correspondia

Nós os ignoramos

Nós nos omitimos

Para não pecar, pecamos;

Para não viver, fugimos.

Ainda há tempo

Ainda existimos.

Era de manhã

Proêmio

Era de manhã. O sol, ainda a ponderar-se, rompendo sobre os montes, mostrava lentamente sua altivez; e de manhã, cada detalhe, de uma cor, de cada item, que surge diante dos olhos, é uma surpresa e um encanto.

Eu disse: “Vamos com isso, decida-se! Um homem não deve passar por este mundo sem deixar nenhum grande feito; e aí vem o fim do dia.”

De fato, desde que se amanhece anda-se rumo ao anoitecer.

...E as cores do crepúsculo invadiram meu pensamento, apesar do espetáculo da manhã. As razões que me levaram a tal pensamento foram muitas, todavia, isoladamente, as desconheço.Não sei como explicar.

Por um instante essa sombra soturna, a idéia do anoitecer, abateu meu espírito como uma repentina consciência do indesejado, inevitável.

Sei que, há muito na minha vida, inconscientemente, relutei a qualquer mudança.

Mas logo ao mover-me, atento e flexível, vieram brisas luminosas, frescas, como vozes de anjos, e sopraram esperanças aos meus ouvidos, e, brancas nuvens, de então, circundaram o horizonte e povoaram meu céu como névoa dispersa n’aurora pelo sol de primavera.

A temperatura, no entanto, era desconfortável. O tempo, pesado, de baixa umidade do ar, era de verão já em declínio; e eu, a propósito desse paradoxo, distante da suavidade e beleza da estação primaveril. Cedi-me.

Sim; novamente todos os sonhos da adolescência e juventude eclodiram como botões de flores. Até mesmo os mais bizarros desejos da meninice ressurgiam como fantasmas no meio do jardim secreto do meu castelo de ilusões.

Todos lutavam, loucos, pela chance de reviver, para que eu os sonhasse de novo, como se eu já os sonhasse de novo, não como os sonhara constantemente no porão da ignomínia. _Como se possível fosse!

De início foi difícil contê-los. E talvez a tentativa de contê-los, de novo, tenha sido novamente um erro, o último erro. Nada pior para um homem que já visualiza o limite dos seus horizontes lutar para conter seus sonhos... pior quando esse é simplesmente a felicidade.

Mas eu tinha que refreá-los, ou pelo menos moderá-los; há muito eu estava só no mundo sombrio das desilusões tendo apenas os pesadelos da realidade como fieis companheiros; E sonhar é um estado de realidade muito distante quando se conhece o delírio da realidade mórbida, freqüente, dia a dia.

Contudo, os sonhos, há tanto adormecidos, não envelhecem, não enfraquecem; assim como as vozes dos anjos nunca se calam, ambos quando ignorados, reprimidos dia a dia, fecham-se no escuro do tempo, no túnel turbulento, enquanto a vida obscura e sonolenta prossegue sem sentido, amplamente sem propósito. Mas os anjos permanecem ativos dentro e fora de nós.

De quando em quando, porém, um sonho nos sacode, os anjos se manifestam num brado mais forte, soprando em nós um hálito mais quente e balsâmico, torpe...! Entusiástico e de intenso otimismo. E nos sacode!...

E eu me vi então um vencedor: compositor, poeta, sonhando...

Novamente um sonhador...!

Sonhando:... Professor, técnico, escritor, filósofo...

Ah! Sonhando como no tempo da juventude.

E os anjos diziam: “Sim! Você ainda é jovem! Você é inteligente; você é capaz!...” E eu acreditava, sempre acreditava. Mas os pensamentos indomáveis, reféns da razão, das normas, sempre medem os sacrifícios e as possibilidades, e, inevitavelmente as conseqüências; e mesmo sabendo que o benefício maior será a“felicidade”, hesitamos. Hesitamos porque somos educados para obedecer ao pensamento alheio. Mesmo cônscios não sabemos reagir, mover-nos para frente, devido às diversas correntes que nos prendem do presente ao passado no qual nos detivemos inertes. A razão, a disciplina, a lógica, muitas vezes nos impede de viver a vida plenamente. Aí, pensamos que não pertencemos a esse tempo em que vivemos.

Até que vem o amor. Este remove a inépcia, move a inércia, derruba as estruturas da indolência, para projetar e construir torres imponentes, babélicas, que nos leve ao céu. E nosso pensamento é um senhor arquiteto.

E ele veio, o amor, e esmagou-me para me recompor.

Tanto me balançou, tanto me sacudiu!...

Ah!!! Se eu tivesse cedido...

Se eu tivesse caído logo de início, nos primeiros sacolejos... mais rápido eu teria me movido a reconstruir-me; Mais nobre seria minha reconstituição.

Por isso estou aqui, servo de mim mesmo, aprendiz, modéstia parte, poeta eminente, desperto _ que ninguém o saiba tão egrégio, mas a si mesmo conspícuo _, a captar sensibilidades, e delas, suas virtudes e fraquezas, para conhecer um pouco mais a mim mesmo e compor a miscelânea dessas sensitividades dos eus “sentimentólogos” _ sentimentais _ habitantes do meu universo, sob o sol deste entardecer.

Aliás, influência e domínio já bastante perceptível... esse sol em mim.

Quantos de mim habitam em mim? Mal conheço um: o que pensa que pensa, e tudo sabe, e nada sabe.

Quantos de mim existem aprisionados nesta unidade?

Pouco conheço do mais íntimo.

Nada conheço da complexidade do todo; eis o pensar-me então: laboriosa cobaia, num gigantesco laboratório, sob observação constante; ou seja, ciência e cientista; experiência e resultado, num labirinto de pesquisas na própria laborterapia.

Ou seria simplesmente ambíguo?...

O homem um exílio de Deus...”

Misticidade...!

Mente e loucura,

Corpo e alma?

Eu, tanto anfibológico!?

Pai e padrasto,

Gênio e tolo.

É assim que trabalha minha mente: folha ao vento; nuvem fina, que hora se condensa; pássaro vulgar, hora ligeiro, hora paira, plana, e quando pousa é porque voa mais longe, ou, para mais longe voar.

Pássaro...; gosto disso.

A natureza presente lhe é distante e indiferente. Tudo que se vê nos montes, nas planícies dos horizontes, à orla dos céus, nuvens cores e sons, infinitos, é a matiz do seu interior; uma extensão mínima de si. Observá-la, proteger, estudar seus movimentos, é a única forma de conhecer a si mesmo, por isso voa.

Pousei.

Foi em Itapevi _ era de manhã, como já dissera, ouvi anjos, e disse sim à ordem e ao desafio de uma nova retomada à antiga continuidade _, andávamos, eu e eus, discorrendo pela rua, sobre o futuro, a melhor decisão; então, falei ao meu eu ouvinte e melhor amigo disponível no momento:

_ Cara, é hora de decidir! Ou nos tornaremos pra sempre o que somos, mortais insignificantes!

E todos, na costumeira falação íntima, opinavam sobre si e o tempo:

“Pois, se se acomodar por mais tempo, será tarde demais; daí, o que acontecerá? O fim de nosso clã. Somos uma plêiade mal-nutrida: _ mal-pai , mal-esposo, mal-formado, mal-humorados, mal-amado; mal-sonhadores, mal-poetas... _ contudo célebres, doutos, mas no anonimato, omitindo ao mundo nossos conhecimentos. Se não construirmos e divulgarmos nossa identidade, nossa estadia nesse plano tornar-se-á em vão, e o homem precisa trabalhar em prol da grandeza de sua prole!, a saúde das futuras gerações, a extensão de si. O feito define o homem.”

E no outro, humilde ancião, se atearam tais palavras; e noutro expectativas; e outros e outros se manifestavam, otimistas.E todos cobravam a mim.

Enfim, optamos e decidimos pela sala de aula _ como nosso recreio da meia-idade _, a retomada aos estudos.

Assim tornou-se a escola: minha comunidade, minha família, minha casa de repouso, minha caverna, e dentro, um jardim...

Resgatei antigos sonhos, e no conforto da velha inocência os acolhi. Ouvi apelos da criança pródiga, resgatei-la, impus disciplina, os incentivei e os corrigi.

Nos primeiros dias, confesso que não foi nada fácil.

O maior dos desafios não eram as tradicionais lições: de aritmética, gramática, física, a filosofia dos sábios, os costumes dos antepassados, a história geral e patética, sócio-político, ou, sócio-econômica, e sim a química.

Como é assustador a reação de corpos que se atraem! Como são estranhos os reagentes e seus efeitos! Como gera dúvidas concretas e certezas obscuras no estudo das causas e efeitos!

Como exige cuidado extremo manipulá-los em certos ambientes! E, nessa manipulação, difícil é interferir nessa complexa miscibilidade;

O que espanta e faz soerguer nosso entusiasmo e curiosidade:

De como reage o olhar ao sol...

De como se dilatam pupilas para refleti-lo.

A jovialidade viril...

De como nos renova seu calor;

De como padecemos sob os efeitos de seus raios exterminadores de causa comum e desconhecida...

Sol...!

Pela manhã uma exsucção que vivificava meu espírito juvenil. Meu instante de utopia.

Próximo ao seu apogeu, no deleite crescente do meu constante “proxismo”, o desconforto da dúvida, o medo; e por fim o declínio, o meu e o dela, estrela ainda em ascensão.

O resto do dia não era dia, era uma espera; uma longa espera por outro amanhecer. Meu pensamento único, como um fio imensurável dum infinito novelo a desenrolar-se lentamente, vê-la.

Passei a ignorar a noite e seus brilhos, desprezar a lua e tantas outras estrelas, tão somente por ela, Sol _ estrela-da-manhã, flor-do-dia_, universo do meu pensamento.

Assim são meus dias de aula, uma corrente de emoções, um amaranhamento de sonhos, desejos, dúvidas, que se estendem, espaço-tempo, num glóbulo temático, de tema poemático; de aprendizagem, adaptação, renovação, teorias, conceitos, presságios, vidências, evidências e poesia.

E em meio a essa dissimilitude emocional ainda aprendo, ou tento aprender, um pouco de gramática e geometria; aliás, o que justifica ali, minha presença, o alto custo da mensalidade, o sofrimento, o tempo, e a estadia no recinto junto à classe.

A propósito desse estágio, estou contente, apesar de triste; quanto à prática e desprendimento, o futuro dirá. Quanto ao grupo, são excelentes amigos; todos maiores, adultos, a maioria de meia-idade.

Louco?

Terra, natureza grávida, de velhos-moços-crianças dispersos em fetos; fauna flora, paz, guerra, em fúrias e calmas; vida-morte. Vivemos todos, este estado de eterna gestação eterna, sob vida, de morte de prematuro aborto.

Já não tenho nenhum vício “moral”, nenhum hábito, exceto pensar: não fumo; não bebo; não transo ou faço amor; nenhuma diversão tem lugar no meu tempo. Privado dos prazeres, e de mim mesmo, só faço pensar; e pensar pode ser um exercício muito perigoso demais, a mim e a todos à minha volta. É um conflito permanente.

Isolar-me? Talvez; a melhor saída.

Liberdade.

Se Paga um alto preço pela honestidade.

image001 Temos que nos abster de prazeres triviais, mas que são legados do tempo e formam nossa personalidade;

image001 Nos abdicar das alegrias comerciais, convencionais, as quais só se adquire por meio do consumo se: aderindo à filosofia do capitalismo, no meio da sociedade moldada para este fim nos dias de hoje, nos cenários onde só se entra a traje típico, perfumado a sarcasmo e à carícias de mãos sujas, perante a apresentação de crachás de associado que identificam seu dinamismo, de malandro, corruptivo, corruptor, e ou, conivente; ou aberto a tais políticas.

Ao honesto, ser expectador é humilhante; participar é a morte, a autodestruição.

Não obstante, nutrimos a vaidade desses soberanos, portanto, de qualquer forma padecemos.

Mas o que nos mata mesmo é a culpa.

Quanto sou eu o responsável pela miséria no mundo, pelo aquecimento global, as guerras, o analfabetismo, o desemprego, a fome, as pragas, e por todo e qualquer fenômeno natural de corrupção?

Cúmplice, todos o é.

Estou tentando me adaptar.

A roda gira a uma velocidade X, não pára, e para calcular seu percurso perde-se um tempo que não se tem, e no ponto Y ou Z, _ não sei bem _ onde me encontro, parar seria perder o sentido numa rotação retrograda.

Não sei como medir o ângulo...

A tecnologia eletrônica é o maior desafio para a vida, se não a estudamos não a entendemos; adeptos ou não a engolimos.

Tanto no espiritual quanto no social, nem filoneismo nem misoneismo; parcial e moderado.

A descrença, mistificação de Deus...!

Será que ainda existe fé?

Será a ciência o Deus da atualidade ou futuro?

Deus é ciência?

Ou vice-versa!?

Antes da civilização o homem parecia tão promissor!

Espelhava-se na natureza para progredir, se autopromover, e de certa forma se auto-recompor,

Parecia a si mesmo auto-suficiente. De onde surgira o senso, a vocação, pela autodestruição?

Só o autocontentamento é capaz de refrear o homem.

O homem extremamente ambicioso jamais saberá o que é satisfação.

Ainda me sinto vento da aldeia tupiniquim.

Quando se olha no íntimo, ou se ama ou se odeia.

Mais se odeia; um insignificante número dos membros dessas numerosas tribos se venera, se valorizam, e se preservam gratas pela existência.

Mas por quê raios estou falando a mim, me cansando, disso?

Desamor e desgraça...

Eu pensava em sol, naqueles olhos...

Naquele olhar...

_ Descanso para o meu espírito _;

Eu pensava nela.

Zona de desejo...

Amor;

Eu pensava nela...!

Tenho notado que ela me conduz a mundos estranhos.

Tornei-me peregrino. E em terras desconhecidas meu eu faz política extravagante e fora do seu conhecimento. E ao rebelde o mundo _os senhores_ o conduz às cavernas, ao fundo do poço, o reduz ao mínimo, priva-o da luz à margem, reduzem-se os pontos de abrigo, as fontes, os asilos.

Eu digo, ninguém acredita: “Ao homem consciente é difícil viver em paz”, sua consciência é loucura, e sua insanidade, lucidez. Difícil saber-se no melhor do seu estado. A consciência, porém, atinge seu auge quando se está totalmente envolvido pelo amor.

Ah! Devíamos amar imparcialmente, pundonorosos pela arte de viver e amar; e ter essa doxologia como um ato de celebração de gratidão e louvar a Deus,

Livres de paixões e possuídos de ternura.

Loucos, abestaiados...

Mas devíamos cumprir as leis parcialmente, emprestando o corpo às normas da disciplina e o espírito às leis dos sentimentos soberanos. Mundos paralelos e distintos...

Mas não é assim que se vive?

Eu digo, ninguém acredita: Defender-se do pecado é tão, ou mais, doloroso quanto pagar pelo ato indecoroso, imoral, ou amoral. E com a desvantagem de não ter sentido o gozo do prazer de cometê-lo; eis a tentação.

Pecar devia ser um mandamento; _ pecar sem agressão.

Eis a maior dor, pecar por não pecar.

Amar sem o saber-se amado...

Pecar por amor é um ato de coragem.

Todos têm poder de julgar-me, e julgam.

Todos têm poder de sentenciar-me, e sentenciam-me.

Mas só eu tenho poder de escolher o que absorvo, e absolvo-me.

Mas pago, cumpro sentenças.

E é tudo que faço por esse ato de pecar às avessas... acorrentado por essa misofobia que me arrasta para mais de cem anos de solidão, embora amarrado no tronco de um relacionamento tedioso, insípido, ao qual me sujeito, submerso num fossário saturante.

As incessantes porradas da vida sobre mim, quero crer, são para fortalecer-me, como exercício para os meus músculos; Calo nas mãos.

Eu absorvo tudo, ou pelo menos um pouco, de toda energia desses conflitos, desses atritos, resultantes dessas cacetadas.

Como diz o filósofo: “O que não me mata me fortalece”. E o que me sobra de útil dessa perversidade, é nada; ou quase nada, exceto essa dor.

A dor de não ter

A dor de não poder

A dor de ter consciência disso.

Saber que tudo são filosofias; doutrinas de manipulação do caráter humano.

Viramos o rosto

E a felicidade passa por nós

Como fosse água corrente, impura; Ou vento de dunas...

Mas a água é cristalina e fresca

E o vento puro, suave, e perfumado... Sabemos.

Enquanto adiante vidas _ juizes _ se deleitam indiferentes a filosofias e regras.

Como julgar o certo e o errado quando se está em jogo a felicidade?

E o caráter?

Ah, esse constante sofrer! Em que me enriquece?

Em que fortalece meu espírito?

Pra onde me leva bordoadas, tropeços?

O mundo certamente seria menos violento se houvesse menos leis e mais liberdade, mais compreensão.

Se ignoro a consciência sinto-me bem momentaneamente, depois vem o remorso, o sentimento de culpa, de contraventor, a culta de ter ou não negado-me a mim mesmo. E essa emoção é imencívelmente mais prolongada do que o prazer sentido.

Do que extraio da vida, dia a dia, me nutro para suportar o peso das ameaças, tentações, e me manter no caminho traçado por princípios e conceitos mantidos pela fé.

Dou as caras à vida, encaro o mundo e sofro as conseqüências.

Expectativas...

O homem vive de expectativas, se move por expectativas: sonhos, desilusões, paixões, esperanças, altas solidões..., e se uni aos espectros da falsa boemia para a concriação e fuga a um mundo de prazeres onde prospere os frutos da poesia.

Às vezes acho que enquanto traçamos um plano perfeito, infalível, que conduz à vitória, uma mão invisível se antecipa e traça nesse mapa obscuros obstáculos e precipícios, e quando avistamos ao extremo do horizonte o paraíso, eis o abismo.

Um tropeço muitas vezes nos conduz adiante.

Caímos ou voamos.

São invitáveis no momento de dor, a injúrias, os palavrões, o abatimento de espírito; não obstante, os passos foram dados. Mas nesse ínterim, não se vive, nada se colhe desse tumulto temporal, nesse desequilíbrio espírito-corporal.

Quando ao crepúsculo é impossível se voltar ao frescor do amanhecer.

Cada dia é um dia-vida.

Após o crepúsculo se amortece a luz, anoitece; é um fato inevitável.

Contudo, lembranças e sonhos ressurgem conforme a brisa perfumada desperta as auroras.

Já que não posso recomeçar o dia, me contento com as memórias, e nelas, sonhos antigos se renovam com cores e perfumes da temporada; da nova estação; do dia recém-nascido...

Imaginariamente.

Esse sol generoso que brilha

Com seu olhar cálido me fita nesse entardecer

Acorda sonho encantado, quase mito,

Há muito adormecido.

Minhas pupilas vívidas,

Revividas, se dilatam na busca que as suscita.

Uma aventura? Um caso?

Um ficar?

Um novo amor?...

Uma nova oportunidade de ser feliz.

Não sei!...

O dia passando, e eu, nessa encruzilhada

Olhando o céu, além... além.

E uma voz, em mim, me diz:

“Ainda há tempo! Ainda há tempo!”

Vai Raimundo, vai!

E nada.

Nem rima, nem solução.

Hoje, senti no seu sorriso bem mais do que educação e mera formalidade; vi prazer nítido, íntimo, de felicidade.

Que vontade de beijá-la!...

Maldita fidelidade!

... medo de, com minha sede, secar a fonte.

A expectativa daquele orgasmo...

_ Nós o pressentimos _

O pânico, o deleite _ êxtase duplo _

O tédio, depois a realidade.

Que adormecer!...

Transe.

O que dissemos

Com silêncios e palavras

Entre risos e olhares,

O gozo mudo a gritos agudos,

Silenciosamente engolidos

Com o amargo sal

Do beijo detido

Já no seu salivar explosivo

De calor não sentido

No abraço não dado

Dos sussurros inauditos,

Já não sei.

Cada instante é um instante

Cada gesto uma magia.

Que vontade de beijá-la!

Hoje; hoje era o dia.

Sobre o amor...

O que dissemos?!...

“...Tinha medo de morrer e, em tal instante, descobrir nunca ter vivido, nunca ter visto a luz do dia. Agora, nos seus olhos, Sol, vejo sol, e tenho medo de morrer sem antes sentir seu calor.”

“Eu seria tua; eu quero ser tua! Eu quero ser eterna, mas...”.

_ Uma voz nos lembra que estamos em publico _

“Você é um poeta... Eu seria sua, eu seria!

Meu Deus, Eu seria feliz! Meu Deus! Mas...

Jesus, eu sou casada, muita bem casada; você é casado!

Infelizmente eu sou... Se eu não fosse!... Não, eu não posso!”

Eu nunca hesitei diante de uma mulher,

Mas por ela minhas pernas tremem,

Perto ou longe, minha voz falha.

Mas naquele instante, mirando nos seus olhos, eu jurei a mim mesmo,

Por nós dois, que faria de nós, eternos.

Que bom vê-la! Que alegria!

Que cena fantástica é a sua imagem, sua presença, seus movimentos...

Radiante fluido de essência de vida... _ Sol!

Seu nome é Sol.

“Não gosto que me chamem “Solange” _ ela diz _, meu nome é “Sol!”

Eu achei engraçado.

Ela então quis me dar um novo nome: “Rái!

Você vai se chamar, Rái.! Meu poeta.”

Eu achei engraçado, e aceitei.

_ Então, farei versos pra você todos os dias, Pensei.

Ela então me batizou.

E ao banhar-me com seu olhar de luz, me sorriu,

E lançou sobre mim uma oração, ou talvez um hino,

Um poema, uma poeira de luz;

Um espírito-santo- amém!

Uma ave-maria-cheia-de-graça...

Um sopro-divino-de-vida-amor!...

Uma salve-rainha-de-misericórdia...

Um bem-vindo...

Uma extrema-unção?!...

Sei lá!

E eu renasci.

E ela se se eternizara em mim, Sol!

Naquele dia escrevi versos e chorei.

Chorei e escrevi.

Cantei.

Daí, eu comecei a escrever sobre meus sentimentos.

Um dia, ela leu um pequeno trecho de um texto no qual eu quisera falar do meu amor,

Mas eu sei, há muito ela lia meus pensamentos.

Ela quis saber quem o escrevera e que mulher de tão admirável beleza teria mérito à tão eloqüentes elogios.

_ Você, eu disse.

Ela gostou.

Daí, todos os pensamentos que brotam da minha emoção, no meu instante de dedicação, eu os escrevo. Todos os dias eu me dedico um tempo para nós dois. Como fosse o nosso momento de amar. Hora de namoro.

Todo dia escrevo

Todo dia a namoro

Todo dia a amo

Todo dia nos eternizo.

Todo dia, todo dia...

Eternamente.

Debruço-me no que extraio e retenho de sua presença.

Tua imagem é meu campo, meu horizonte, minha nuvem, meu céu infinito, meu passeio, minha viagem, minha busca, minha fome, minha aventura, meu desatino, minha relva, meu descanso, minha paz...

Minha fonte.

Meu piano;

Onde minhas mãos leves passeiam;

E meus dedos deslizam fazendo nascer sonoros poemas.

_ pérolas da mente a acariciar-te _,

Adornam teu corpo de dourados pensamentos;

Versos céleres de um céu escarlate pela tempestade de desejos ressoando

Apelos do murmúrio divino da essência luminosa que lançaste em mim.

Agora somos eternos!

Eu sou teu; tu és minha, Sol.

Era de manhã

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Poemas-sol

 

Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferente em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto
E, afora esta mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de amor espanto,
Que não se muda já como soía.

Poemas-sol

Carta ignorada

A carta...

Bem quisera tê-la escrito para outro fim,
que não para esse começo de triste destino
que encerra o ingênuo amor,
tão meigo e tão fino,
ao teu desprezo e à minha solidão.

Por
amor e cortesia; Bom dia, Sol!
Eu adoro te dizer essa frase: “bom dia!” e
deixar o coração
concluir com sua alegria.

Concordar em afastar-me
de ti abateu-me o espírito.
Muito me custa tal decisão.
Teus conselhos,
bem quisera nunca tê-los ouvido.
No entanto pretendo cumprir o prometido.
Porei em prática teus conselhos;
Aliás, já tomei algumas iniciativas,
mas já me pesam as conseqüências.

Naquela manhã de chuva em que você
disse sim,
para que eu me afastasse, me refugiei
na intenção de a
ninguém agredir
com minha cara sisuda e melancólica.

Ninguém merece
ter de suportar a carranca de um velho errôneo,
sentimental, que não sabe
controlar suas emoções; Não é mesmo?
Foi então que pensei: talvez ela me
conceda um último pedido.

Por isso, hoje que só teremos provas, a
importuno com esta carta
que pode ser longa, mas pesso que considere a
situação,
visto que não mais deseja minha voz, meu olhar, flores...
e
menos ainda minha companhia.

Por isso, por favor, leia.
Eu apenas
quero tentar dizer o que num diálogo me foi negado.
Diálogo; coisa que até
os inimigos se concedem.

Por favor, entenda; é importante para a minha
paz.
Este será o último ato inconveniente do homem estranho que sou.
Depois de tê-la escrita e sabê-la lida por ti, vestirei a máscara da
hipocrisia e render-me-ei ao cafajeste comum, ao qual odeio, mas, que existe
dentro de cada humano, e que é, a propósito, mais aceitável à grande massa
social.
Vou tentar ser o inverso do que sou, daí, quem sabe serei até mais
simpático, ou menos irritante.


E queira deus, nem mesmo eu me
reconheça.
Desde já agradeço pela atenção.





Olá,
felicidade!


Bom dia, sol!
Que a mão do tempo e o hálito do amor
mantenham o seu deslumbrante brilho, e sempre viva a flor da alegria que perfuma
sua vida.

Desde a infância eu declamo ao sol; “Bom dia sol, bom dia!”,
mesmo que a estrela gigante se faça invisível ou chova. É a frase perfeita para
se começar o dia. Nela consiste a essência para o começo, _ saudação, votos,
louvor, prenúncio e fé de otimismo bíblico e panglossiano. Porém eu a declamo só
e mentalmente desde... Até que te conheci.

Minhas palavras sempre causam
constrangimento; talvez pela espontaneidade com que meus sentimentos se
manifestam. Por isso converso silenciosamente
.
Para certas mentes
maliciosas eu tenho um tipo de desequilíbrio psíquico, conseqüentemente, desvios
de comportamento. Só o amor incondicional dos pais se sobrepõe às esquisitices
de um filho; outrem estranham à criança que fala sozinha, que admira as flores,
as auroras e crepúsculos, os horizontes, as sombras, à noite, e que fala às
águas e voa... e inventa histórias para contar a si mesmo. Consideram-na
retardadas.

E ela cresce assim, como eu, incrédula e confusa, cheia de
perguntas e sem respostas, triste e solitário, questionando as verdades
religiosas: como origem, existência e pecado.

Ser religioso é bom e
necessário. Mas para o ser humano comum, um mortal, ser um religioso sincero
como convém é quase que impossível, caso ele queira cumprir o compromisso pelo
qual veio ao mundo; viver. Os conceitos, as normas, a ética, os dogmas, são
algemas que nos aprisiona, para que a consciência invasora nos flagele, e
lentamente nos leva à morte.

Pelas travessuras infantis entre meninos e
meninas, pelas peraltices e sonhos juvenis, pela bênção da virilidade e pelo
milagre do prazer, do imenso gozo de viver a vida na sua plenitude, Deus
rejeitaria os próprios filhos? Para isso nos criou sensíveis; para viver.

Sim, temos de nos manter saudável, puros, limpos e dignos, porque o
corpo é templo divino, e a vida é Deus em nós se deixando guiar pelo nosso livre
arbítrio; porque Ele se orgulhou tanto de sua obra que se aderiu a nós para
provar o prazer da sensibilidade plena. E quando amamos inocentemente permitimos
que Deus deleite-Se em nós sob os encantos da sensibilidade humana. Assim se
manifesta a humilde natureza; entrega-se à vida.

Eu cresci assim, com
idéias e comportamento estranho, tentando ao máximo evitar me corromper pela
falsidade de idéias convenientes ao meio e deteriorantes ao princípio.

Vivo como um ramo que pensa e respeita as ervas vizinhas, mas evita
deixá-las interferir na sua natureza para não modificar na sua essência o fruto.
Escolhi a doutrina do amor que é o Deus verdadeiro do meu universo. Eu O
conheço, e Ele conhece a mim, e somos um só, único; e é o Deus verdadeiro de
toda a humanidade que o procurar. A doutrina é: “Seja amor, tenha amor, doe
amor, faça amor”.Ser puro é ser honesto consigo mesmo. O amor tem essas
características, é como o sol, mesmo triste e sombrio, ainda assim ilumina o dia
e alimenta a vida.

Desculpe-me. Deixemos de lado as glórias e decepções
do passado, e minha excêntrica filosofia, senão isso tornar-se-á numa maçante
autobiografia. Meu propósito é apenas te tranqüilizar. Não sou uma ameaça,
apenas me enamorei por ti. Poderia até dizer que te amo, pois, na verdade te
amo, mas não posso ostentar brilho a esse amor se você não o deseja exuberante
ou simplesmente vivo.
“To be or not to be”, eis a questão, eu o quero vivo e
resplendente. Este amor é um marco importante na minha vida, e eu tenho direito
e obrigação de senti-lo independente que seja venturoso ou infeliz. Não quero
importuná-la; só quero que saiba que você me inspirou este sentimento divino que
muito me valoriza, a mim e a você, e principalmente valoriza a vida.

Nos
rastros que deixei pelo caminho tem sinais de êxito que superam os fracassos.
Tenho filhos maravilhosos e meus sonhos de felicidade transcendem, e eu ainda
existo. Meus sonhos híbridos de filosofia, após longo período de hibernação,
tocados por um raio de luz de esperança, me levaram até você. Acordo e percebo
que o sol brilha e eu estou vivo, e que sou capaz de amar, por conseguinte, a
felicidade pode estar no amanhã assim como a vejo hoje nos seus olhos e no seu
abraço. Talvez eu tenha te conhecido tarde demais. Talvez cedo...

Ou
talvez na hora certa. Para descobrir isso precisamos permitir que nossos corpos
se entendam, porque o corpo físico com o corpo físico se entende, e o espírito
ao seu semelhante o busca e se une livremente, porque espírito não se prende a
leis nem matéria, e sim, ao sentimento que nós pensamos erradamente ter a
habilidade de o manipular.

Foi visão mágica, a primeira vez, entrar por
aquela porta e ver você. Foi causa e efeito instantâneo. Agora, mesmo que me
afaste a causa, o efeito subsistirá. Primeiro tive medo, depois uma sensação
indescritível. Uma espécie de gozo e desfalecimento...
E um perfume
inebriante, indiscernível, que me penetrou no cérebro e tornou-se mensageiro
pressagioso do meu pensamento, porque que o sinto antecipadamente a cada vez que
penso em você ou você vai estar fisicamente presente.

Seria lindo, não
fosse a dor que também vem lentamente e cresce decididamente, e passa, passa,
some devagarzinho; e meus olhos lacrimejam, escoa, choram livremente porque não
consigo reprimi-los. É uma dor sem origem que vem do nada e a qualquer hora. É
como uma brisa perfumada e errante que me causa arrepio. Você já sentiu algo
assim?
Alegria. A cada bom dia eu penso: “Meu deus que mulher linda!”, e
desejo tocar seu rosto...
E ter diante de mim um sol sensível, que sorri,
que fala, e no olhar revela o paraíso para onde eu me transponho numa paz
estável que renova a cada generosidade do seu olhar, é alegria. Uma alegria
triste, suave e triste.

No seu rosto decifrei logo meu destino: é
cultuá-lo eternamente. Purifiquei-me e perfumei mãos e pensamentos, fiz voto de
fidelidade ao meu amor, tal deveria ser um servo orgulhoso e digno a qualquer
percepção de sua deusa. Quisera ter continuado em segredo...
Mas veio
dádivas e dádivas imerecidas: A amizade, os sorrisos... Meu Deus, o teu olhar! É
como se você também tivesse me amando...

Mas ao chega o fim de semana,
eu sinto uma terrível angústia, e o pressentimento de nunca mais vê-la me
arrasa, por isso sinto uma necessidade urgente de dizer que te amo.

No
quinze foi a consagração, a glória da minha felicidade. Aquele abraço... Tinha
vida nos seu abraço; calor e paz. Eu flutuava, e afinal soube o que é ser feliz.
Obrigada!
Foi o primeiro abraço de aniversário da minha vida, e foi no qual
senti existir mais amor e sinceridade.

E enquanto a violência
aterrorizava São Paulo, eu no meu egoísmo exagerado soprei a vela e fiz o
pedido: “Meu deus, que este Sol nunca se apague!” Foi o que pedi. Terá Deus se
revoltado por tamanha pretensão e egoísmo?

Sim, foi ousadia, mas foi
inocente. Eu pedi a Deus, você, iluminado pra sempre a minha vida, e eis que
como no esplendor milagroso de um dia de inverno, na hora em que ostenta toda
beleza do sol reacendendo a vida, me aquecendo com carinho, uma nuvem negra veio
eclipsar a benção da luz. As palavras que eu disse foi esta nuvem que a
encobriu. Eu não deveria ter dito o que sentia. Faltou-me sabedoria, no
silêncio, vos na atitude, e malícia.
Eu sei; não tenho classe. Não sou bom
nisso; me falta estilo.

O abandono é ainda o preço que pago por não
saber portar-me diante tão ilustre companhia. Reconheço suas razões de
preocupação e lamento ter revelado meu sentimento à pessoa alheia. Eu precisava
desabafar e talvez tenha escolhido a pessoa errada. Mas sempre tive consciência
da impossibilidade de ser correspondido. E bem sei, não saberia o que fazer se o
fosse. O que eu faria por você, tendo você ao meu lado? O que eu tenho para te
dar além do meu amor? Nem mesmo em gaiola dourada se prende pássaro tão belo e
precioso. Silenciaria sua alegria e entristeceria seu canto. Apagaria seu
brilho.

Sabendo que você é tão feliz no teu ninho dourado, de certa
forma, eu também fico feliz, embora invejoso e enciumado. Mas tua felicidade me
basta. A minha ambição era só as migalhas, os reflexos da sua presença, o que
evapora da sua emoção, a sua alegria, a sua luz. Eu só aceitaria ter você se
tivéssemos amor recíproco e igual coragem para admiti-lo, mesmo que fosse na
aventura de uma noite de total entrega; ou se me desejasse como eu te desejo.

Sou um sonhador, mas sou consciente. Jamais destruiria seu lar, sabendo
que você é feliz, porque eu valorizo a felicidade no amor conjugal visto que não
a tenho. Mas peço, por favor, a você e a Deus, não me omita sobre o seu
sentimento e a sua felicidade. Eu te quero te quero, muito muito muito, não
tenho um templo, um palácio, nem recursos financeiros, nenhuma posse, e nenhum
atrativo físico, eu diria, mas eu te tenho amor na medida exata.

Vivo
rodeado de fantasmas que me atormentam: complexos, dúvidas,... Dúvidas quanto à
verdade do ser humano que sou. Vivo uma situação mal definida e não sei como me
sujeito a tal relacionamento de convivência tão desgastante e desaconselhável,
até perigosa.
Reconheço minha fraqueza, mas agora o amor me despertou; e vou
reagir.

Vou te poupar saber da minha rotina e meu comportamento sexual,
porque continuo um adolescente, cheio de vigor, entretanto ingênuo e
inexperiente, que sonha com a mulher do próximo para ter prazer. A mulher a quem
amo me quer, ou melhor, só me queria como amigo-irmão e agora me ignora
completamente, quer que eu me afaste...
E eu a desejo cada vez mais, mais
ardentemente, e fica cada vez mais difícil esconder este tesão que não se
satisfaz com o freqüente auto-erotismo. Onanismo não é a solução, mas fico entre
onanista ou freqüentador de prostíbulo, e prostíbulo, infelizmente, nunca foi
meu lugar favorito para prazer e diversão.

Eu te procuro na intimidade
da solidão do meu quarto, mas já te sinto em mim a todo instante, por onde vou,
onde quer que eu esteja. Daí, é só pensar e... Tenho um gozo lento e infinito,
que não morre, apenas adormece.
Mas depois sinto um vazio imenso. E se
procuro mulheres me sinto sujo, envergonhado, arrependido, e infiel a você.
Parece absurdo; é difícil entender.
Mas tenho um gozo especial, um êxtase
extraordinário que acontece quando penso em você e visualizo seu rosto em minhas
mãos, e a acaricio mirando seus olhos por longo tempo, você sorri, eu a beijo...
e gozamos juntos, suavemente, como acontece agora...
Perdão é pensamento.

Você realmente acha justo um pecador pagar por um pecado cometido em
pensamento, sem ter tido o prazer da real satisfação do ato realizado? Se pensar
é pecado, pecamos.
Se tivermos que pagar pelo pecado é porque merecemos o
gozo. E o perdão existe para o pecado consumado e não para a covardia de se
negar ao amor ou à verdade humana.

Mesmo com este seu estranho desprezo
não consigo sentir raiva de você. Foi um erro seu pensar assim. Desista. Mas
definitivamente a deixarei em paz. Não mais a agredirei com minha presença. Não
farei elogios, não ousarei olhar nos seus olhos, não te darei flores; mas nem
por isso te darei espinhos. Entendi que despreza a tudo proveniente de mim. Nada
te oferecerei, mas zelarei com carinho deste amor que sua amizade me
proporcionou.

Não ousarei olhar nos teus olhos porque sei que neles se
esconde a Sol verdadeira, que você tenta manter muda e prisioneira, mas que
emerge atraída pelo meu amor quando nossos olhares se cruzam. É a ela que eu
amo. E ela está morrendo sufocada. Você a nega socorro como se ela não fosse de
você, a melhor, a mais pura, a mais delicada e humana que em você existe. E
também mata a mim me fazendo impotente, e tendo que exilar dentro de mim meu
amor. Mas respeito sua vontade. Mas por favor, não me humilhe mais na frente das
pessoas, com sarcasmo, me atirando com desdém ao grupo ou aos braços de qualquer
destino. Principalmente na presença da minha filha. Não sei qual de nós sofreu
mais. Mas não se preocupe, ela e eu estamos nos superando. Ela me deu uma lição
de sabedoria dizendo para que eu te perdoasse, porque você não tem consciência
do que fez e da importância de ser amada. De ser amada por mim. Eu, bobo, chorei
emocionado.

Eu cresço, sol, a cada instante desde que te conheci.
Obrigada!

Bom dia Sol! Que seu brilho nunca se apague. É o que desejo e
desejarei sempre. Tomara Deus que você seja realmente tão feliz quanto diz ser,
senão estaremos perdendo a oportunidade de ser feliz e viver um grande amor, um
amor verdadeiro. Você disse que se não fosse casada ficaria comigo. Eu digo;
Estou te esperando, porque o amor não se deixa prender omisso por detalhes
banais.

Acaso um dia queira um amigo sincero, que te ama, sabe a quem
procurar.
O melhor amigo é aquele que assume que nos ama com toda as
verdades de ambos.



(ponto final; tenho que descer, sorte sua!)
03/07/006


Curiosidade
(de 03/07/006)

Parte da carta
ignorada:

Curiosidades: _ Estou queimando os pensamentos: textos que
escrevi desde que a conheci. Foram 69 ao longo deste período. Há alguns que
tenho pena de destruir. Mas destruí-los faz parte da estratégia para amenizar a
dor e cumprir minha promessa. Eu pretendia encaderná-los para te dar no final do
ano, ao término das aulas. Mas é bom que se tornem cinzas. A cinza é o símbolo
do que somos.

Que tal?
“Realmente Shakespeare tinha razão: “Até no
botão mais belo e perfumado se encontra o verme roedor, assim o amor devorador
nos consome e perdemos o viço na própria primavera”. Assim é que me sinto hoje;
uma espécie de flor e verme num caulículo viçoso.
01/06

“Quem?
De repente sou alguém, sou gente!
Poeta
Culto
Sou querido
E
inteligente,
De repente sou gente!

De repente sou gente, sou alguém!
Teu poeta querido
Inteligente...
Sou alguém
Sou gente.

Bem;
De repente,
Ela mente
Sou ninguém.” ... 16/05

“Já não tenho nenhuma dúvida, conheci o verdadeiro amor...
Ela é
linda!
Quando presente sinto paz,
quando ausente me atormenta.”
04/05

“Caricia?! ... Ao tocar uma flor fui picado por uma vespa.
Ciúmes?” 17/06
“Nos olhos, cujo olhar me dá paz e convida à vida, às vezes
vejo núncias de dor e morte.”
14/04/006

“Tudo que mais quero da vida
é abraçar, beijar, me entregar ao sol, embora receie queimar-me até me consumir
a cinzas!” 12/05/006.
Ironia hilariante, não? Não te perecem profecias?


Oportunidades

Sol - Poesia e dor

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