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As oportunidades existem

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Era de manhã

Proêmio

Era de manhã. O sol, ainda a ponderar-se, rompendo sobre os montes, mostrava lentamente sua altivez; e de manhã, cada detalhe, de uma cor, de cada item, que surge diante dos olhos, é uma surpresa e um encanto.

Eu disse: “Vamos com isso, decida-se! Um homem não deve passar por este mundo sem deixar nenhum grande feito; e aí vem o fim do dia.”

De fato, desde que se amanhece anda-se rumo ao anoitecer.

...E as cores do crepúsculo invadiram meu pensamento, apesar do espetáculo da manhã. As razões que me levaram a tal pensamento foram muitas, todavia, isoladamente, as desconheço.Não sei como explicar.

Por um instante essa sombra soturna, a idéia do anoitecer, abateu meu espírito como uma repentina consciência do indesejado, inevitável.

Sei que, há muito na minha vida, inconscientemente, relutei a qualquer mudança.

Mas logo ao mover-me, atento e flexível, vieram brisas luminosas, frescas, como vozes de anjos, e sopraram esperanças aos meus ouvidos, e, brancas nuvens, de então, circundaram o horizonte e povoaram meu céu como névoa dispersa n’aurora pelo sol de primavera.

A temperatura, no entanto, era desconfortável. O tempo, pesado, de baixa umidade do ar, era de verão já em declínio; e eu, a propósito desse paradoxo, distante da suavidade e beleza da estação primaveril. Cedi-me.

Sim; novamente todos os sonhos da adolescência e juventude eclodiram como botões de flores. Até mesmo os mais bizarros desejos da meninice ressurgiam como fantasmas no meio do jardim secreto do meu castelo de ilusões.

Todos lutavam, loucos, pela chance de reviver, para que eu os sonhasse de novo, como se eu já os sonhasse de novo, não como os sonhara constantemente no porão da ignomínia. _Como se possível fosse!

De início foi difícil contê-los. E talvez a tentativa de contê-los, de novo, tenha sido novamente um erro, o último erro. Nada pior para um homem que já visualiza o limite dos seus horizontes lutar para conter seus sonhos... pior quando esse é simplesmente a felicidade.

Mas eu tinha que refreá-los, ou pelo menos moderá-los; há muito eu estava só no mundo sombrio das desilusões tendo apenas os pesadelos da realidade como fieis companheiros; E sonhar é um estado de realidade muito distante quando se conhece o delírio da realidade mórbida, freqüente, dia a dia.

Contudo, os sonhos, há tanto adormecidos, não envelhecem, não enfraquecem; assim como as vozes dos anjos nunca se calam, ambos quando ignorados, reprimidos dia a dia, fecham-se no escuro do tempo, no túnel turbulento, enquanto a vida obscura e sonolenta prossegue sem sentido, amplamente sem propósito. Mas os anjos permanecem ativos dentro e fora de nós.

De quando em quando, porém, um sonho nos sacode, os anjos se manifestam num brado mais forte, soprando em nós um hálito mais quente e balsâmico, torpe...! Entusiástico e de intenso otimismo. E nos sacode!...

E eu me vi então um vencedor: compositor, poeta, sonhando...

Novamente um sonhador...!

Sonhando:... Professor, técnico, escritor, filósofo...

Ah! Sonhando como no tempo da juventude.

E os anjos diziam: “Sim! Você ainda é jovem! Você é inteligente; você é capaz!...” E eu acreditava, sempre acreditava. Mas os pensamentos indomáveis, reféns da razão, das normas, sempre medem os sacrifícios e as possibilidades, e, inevitavelmente as conseqüências; e mesmo sabendo que o benefício maior será a“felicidade”, hesitamos. Hesitamos porque somos educados para obedecer ao pensamento alheio. Mesmo cônscios não sabemos reagir, mover-nos para frente, devido às diversas correntes que nos prendem do presente ao passado no qual nos detivemos inertes. A razão, a disciplina, a lógica, muitas vezes nos impede de viver a vida plenamente. Aí, pensamos que não pertencemos a esse tempo em que vivemos.

Até que vem o amor. Este remove a inépcia, move a inércia, derruba as estruturas da indolência, para projetar e construir torres imponentes, babélicas, que nos leve ao céu. E nosso pensamento é um senhor arquiteto.

E ele veio, o amor, e esmagou-me para me recompor.

Tanto me balançou, tanto me sacudiu!...

Ah!!! Se eu tivesse cedido...

Se eu tivesse caído logo de início, nos primeiros sacolejos... mais rápido eu teria me movido a reconstruir-me; Mais nobre seria minha reconstituição.

Por isso estou aqui, servo de mim mesmo, aprendiz, modéstia parte, poeta eminente, desperto _ que ninguém o saiba tão egrégio, mas a si mesmo conspícuo _, a captar sensibilidades, e delas, suas virtudes e fraquezas, para conhecer um pouco mais a mim mesmo e compor a miscelânea dessas sensitividades dos eus “sentimentólogos” _ sentimentais _ habitantes do meu universo, sob o sol deste entardecer.

Aliás, influência e domínio já bastante perceptível... esse sol em mim.

Quantos de mim habitam em mim? Mal conheço um: o que pensa que pensa, e tudo sabe, e nada sabe.

Quantos de mim existem aprisionados nesta unidade?

Pouco conheço do mais íntimo.

Nada conheço da complexidade do todo; eis o pensar-me então: laboriosa cobaia, num gigantesco laboratório, sob observação constante; ou seja, ciência e cientista; experiência e resultado, num labirinto de pesquisas na própria laborterapia.

Ou seria simplesmente ambíguo?...

O homem um exílio de Deus...”

Misticidade...!

Mente e loucura,

Corpo e alma?

Eu, tanto anfibológico!?

Pai e padrasto,

Gênio e tolo.

É assim que trabalha minha mente: folha ao vento; nuvem fina, que hora se condensa; pássaro vulgar, hora ligeiro, hora paira, plana, e quando pousa é porque voa mais longe, ou, para mais longe voar.

Pássaro...; gosto disso.

A natureza presente lhe é distante e indiferente. Tudo que se vê nos montes, nas planícies dos horizontes, à orla dos céus, nuvens cores e sons, infinitos, é a matiz do seu interior; uma extensão mínima de si. Observá-la, proteger, estudar seus movimentos, é a única forma de conhecer a si mesmo, por isso voa.

Pousei.

Foi em Itapevi _ era de manhã, como já dissera, ouvi anjos, e disse sim à ordem e ao desafio de uma nova retomada à antiga continuidade _, andávamos, eu e eus, discorrendo pela rua, sobre o futuro, a melhor decisão; então, falei ao meu eu ouvinte e melhor amigo disponível no momento:

_ Cara, é hora de decidir! Ou nos tornaremos pra sempre o que somos, mortais insignificantes!

E todos, na costumeira falação íntima, opinavam sobre si e o tempo:

“Pois, se se acomodar por mais tempo, será tarde demais; daí, o que acontecerá? O fim de nosso clã. Somos uma plêiade mal-nutrida: _ mal-pai , mal-esposo, mal-formado, mal-humorados, mal-amado; mal-sonhadores, mal-poetas... _ contudo célebres, doutos, mas no anonimato, omitindo ao mundo nossos conhecimentos. Se não construirmos e divulgarmos nossa identidade, nossa estadia nesse plano tornar-se-á em vão, e o homem precisa trabalhar em prol da grandeza de sua prole!, a saúde das futuras gerações, a extensão de si. O feito define o homem.”

E no outro, humilde ancião, se atearam tais palavras; e noutro expectativas; e outros e outros se manifestavam, otimistas.E todos cobravam a mim.

Enfim, optamos e decidimos pela sala de aula _ como nosso recreio da meia-idade _, a retomada aos estudos.

Assim tornou-se a escola: minha comunidade, minha família, minha casa de repouso, minha caverna, e dentro, um jardim...

Resgatei antigos sonhos, e no conforto da velha inocência os acolhi. Ouvi apelos da criança pródiga, resgatei-la, impus disciplina, os incentivei e os corrigi.

Nos primeiros dias, confesso que não foi nada fácil.

O maior dos desafios não eram as tradicionais lições: de aritmética, gramática, física, a filosofia dos sábios, os costumes dos antepassados, a história geral e patética, sócio-político, ou, sócio-econômica, e sim a química.

Como é assustador a reação de corpos que se atraem! Como são estranhos os reagentes e seus efeitos! Como gera dúvidas concretas e certezas obscuras no estudo das causas e efeitos!

Como exige cuidado extremo manipulá-los em certos ambientes! E, nessa manipulação, difícil é interferir nessa complexa miscibilidade;

O que espanta e faz soerguer nosso entusiasmo e curiosidade:

De como reage o olhar ao sol...

De como se dilatam pupilas para refleti-lo.

A jovialidade viril...

De como nos renova seu calor;

De como padecemos sob os efeitos de seus raios exterminadores de causa comum e desconhecida...

Sol...!

Pela manhã uma exsucção que vivificava meu espírito juvenil. Meu instante de utopia.

Próximo ao seu apogeu, no deleite crescente do meu constante “proxismo”, o desconforto da dúvida, o medo; e por fim o declínio, o meu e o dela, estrela ainda em ascensão.

O resto do dia não era dia, era uma espera; uma longa espera por outro amanhecer. Meu pensamento único, como um fio imensurável dum infinito novelo a desenrolar-se lentamente, vê-la.

Passei a ignorar a noite e seus brilhos, desprezar a lua e tantas outras estrelas, tão somente por ela, Sol _ estrela-da-manhã, flor-do-dia_, universo do meu pensamento.

Assim são meus dias de aula, uma corrente de emoções, um amaranhamento de sonhos, desejos, dúvidas, que se estendem, espaço-tempo, num glóbulo temático, de tema poemático; de aprendizagem, adaptação, renovação, teorias, conceitos, presságios, vidências, evidências e poesia.

E em meio a essa dissimilitude emocional ainda aprendo, ou tento aprender, um pouco de gramática e geometria; aliás, o que justifica ali, minha presença, o alto custo da mensalidade, o sofrimento, o tempo, e a estadia no recinto junto à classe.

A propósito desse estágio, estou contente, apesar de triste; quanto à prática e desprendimento, o futuro dirá. Quanto ao grupo, são excelentes amigos; todos maiores, adultos, a maioria de meia-idade.

Louco?

Terra, natureza grávida, de velhos-moços-crianças dispersos em fetos; fauna flora, paz, guerra, em fúrias e calmas; vida-morte. Vivemos todos, este estado de eterna gestação eterna, sob vida, de morte de prematuro aborto.

Já não tenho nenhum vício “moral”, nenhum hábito, exceto pensar: não fumo; não bebo; não transo ou faço amor; nenhuma diversão tem lugar no meu tempo. Privado dos prazeres, e de mim mesmo, só faço pensar; e pensar pode ser um exercício muito perigoso demais, a mim e a todos à minha volta. É um conflito permanente.

Isolar-me? Talvez; a melhor saída.

Liberdade.

Se Paga um alto preço pela honestidade.

image001 Temos que nos abster de prazeres triviais, mas que são legados do tempo e formam nossa personalidade;

image001 Nos abdicar das alegrias comerciais, convencionais, as quais só se adquire por meio do consumo se: aderindo à filosofia do capitalismo, no meio da sociedade moldada para este fim nos dias de hoje, nos cenários onde só se entra a traje típico, perfumado a sarcasmo e à carícias de mãos sujas, perante a apresentação de crachás de associado que identificam seu dinamismo, de malandro, corruptivo, corruptor, e ou, conivente; ou aberto a tais políticas.

Ao honesto, ser expectador é humilhante; participar é a morte, a autodestruição.

Não obstante, nutrimos a vaidade desses soberanos, portanto, de qualquer forma padecemos.

Mas o que nos mata mesmo é a culpa.

Quanto sou eu o responsável pela miséria no mundo, pelo aquecimento global, as guerras, o analfabetismo, o desemprego, a fome, as pragas, e por todo e qualquer fenômeno natural de corrupção?

Cúmplice, todos o é.

Estou tentando me adaptar.

A roda gira a uma velocidade X, não pára, e para calcular seu percurso perde-se um tempo que não se tem, e no ponto Y ou Z, _ não sei bem _ onde me encontro, parar seria perder o sentido numa rotação retrograda.

Não sei como medir o ângulo...

A tecnologia eletrônica é o maior desafio para a vida, se não a estudamos não a entendemos; adeptos ou não a engolimos.

Tanto no espiritual quanto no social, nem filoneismo nem misoneismo; parcial e moderado.

A descrença, mistificação de Deus...!

Será que ainda existe fé?

Será a ciência o Deus da atualidade ou futuro?

Deus é ciência?

Ou vice-versa!?

Antes da civilização o homem parecia tão promissor!

Espelhava-se na natureza para progredir, se autopromover, e de certa forma se auto-recompor,

Parecia a si mesmo auto-suficiente. De onde surgira o senso, a vocação, pela autodestruição?

Só o autocontentamento é capaz de refrear o homem.

O homem extremamente ambicioso jamais saberá o que é satisfação.

Ainda me sinto vento da aldeia tupiniquim.

Quando se olha no íntimo, ou se ama ou se odeia.

Mais se odeia; um insignificante número dos membros dessas numerosas tribos se venera, se valorizam, e se preservam gratas pela existência.

Mas por quê raios estou falando a mim, me cansando, disso?

Desamor e desgraça...

Eu pensava em sol, naqueles olhos...

Naquele olhar...

_ Descanso para o meu espírito _;

Eu pensava nela.

Zona de desejo...

Amor;

Eu pensava nela...!

Tenho notado que ela me conduz a mundos estranhos.

Tornei-me peregrino. E em terras desconhecidas meu eu faz política extravagante e fora do seu conhecimento. E ao rebelde o mundo _os senhores_ o conduz às cavernas, ao fundo do poço, o reduz ao mínimo, priva-o da luz à margem, reduzem-se os pontos de abrigo, as fontes, os asilos.

Eu digo, ninguém acredita: “Ao homem consciente é difícil viver em paz”, sua consciência é loucura, e sua insanidade, lucidez. Difícil saber-se no melhor do seu estado. A consciência, porém, atinge seu auge quando se está totalmente envolvido pelo amor.

Ah! Devíamos amar imparcialmente, pundonorosos pela arte de viver e amar; e ter essa doxologia como um ato de celebração de gratidão e louvar a Deus,

Livres de paixões e possuídos de ternura.

Loucos, abestaiados...

Mas devíamos cumprir as leis parcialmente, emprestando o corpo às normas da disciplina e o espírito às leis dos sentimentos soberanos. Mundos paralelos e distintos...

Mas não é assim que se vive?

Eu digo, ninguém acredita: Defender-se do pecado é tão, ou mais, doloroso quanto pagar pelo ato indecoroso, imoral, ou amoral. E com a desvantagem de não ter sentido o gozo do prazer de cometê-lo; eis a tentação.

Pecar devia ser um mandamento; _ pecar sem agressão.

Eis a maior dor, pecar por não pecar.

Amar sem o saber-se amado...

Pecar por amor é um ato de coragem.

Todos têm poder de julgar-me, e julgam.

Todos têm poder de sentenciar-me, e sentenciam-me.

Mas só eu tenho poder de escolher o que absorvo, e absolvo-me.

Mas pago, cumpro sentenças.

E é tudo que faço por esse ato de pecar às avessas... acorrentado por essa misofobia que me arrasta para mais de cem anos de solidão, embora amarrado no tronco de um relacionamento tedioso, insípido, ao qual me sujeito, submerso num fossário saturante.

As incessantes porradas da vida sobre mim, quero crer, são para fortalecer-me, como exercício para os meus músculos; Calo nas mãos.

Eu absorvo tudo, ou pelo menos um pouco, de toda energia desses conflitos, desses atritos, resultantes dessas cacetadas.

Como diz o filósofo: “O que não me mata me fortalece”. E o que me sobra de útil dessa perversidade, é nada; ou quase nada, exceto essa dor.

A dor de não ter

A dor de não poder

A dor de ter consciência disso.

Saber que tudo são filosofias; doutrinas de manipulação do caráter humano.

Viramos o rosto

E a felicidade passa por nós

Como fosse água corrente, impura; Ou vento de dunas...

Mas a água é cristalina e fresca

E o vento puro, suave, e perfumado... Sabemos.

Enquanto adiante vidas _ juizes _ se deleitam indiferentes a filosofias e regras.

Como julgar o certo e o errado quando se está em jogo a felicidade?

E o caráter?

Ah, esse constante sofrer! Em que me enriquece?

Em que fortalece meu espírito?

Pra onde me leva bordoadas, tropeços?

O mundo certamente seria menos violento se houvesse menos leis e mais liberdade, mais compreensão.

Se ignoro a consciência sinto-me bem momentaneamente, depois vem o remorso, o sentimento de culpa, de contraventor, a culta de ter ou não negado-me a mim mesmo. E essa emoção é imencívelmente mais prolongada do que o prazer sentido.

Do que extraio da vida, dia a dia, me nutro para suportar o peso das ameaças, tentações, e me manter no caminho traçado por princípios e conceitos mantidos pela fé.

Dou as caras à vida, encaro o mundo e sofro as conseqüências.

Expectativas...

O homem vive de expectativas, se move por expectativas: sonhos, desilusões, paixões, esperanças, altas solidões..., e se uni aos espectros da falsa boemia para a concriação e fuga a um mundo de prazeres onde prospere os frutos da poesia.

Às vezes acho que enquanto traçamos um plano perfeito, infalível, que conduz à vitória, uma mão invisível se antecipa e traça nesse mapa obscuros obstáculos e precipícios, e quando avistamos ao extremo do horizonte o paraíso, eis o abismo.

Um tropeço muitas vezes nos conduz adiante.

Caímos ou voamos.

São invitáveis no momento de dor, a injúrias, os palavrões, o abatimento de espírito; não obstante, os passos foram dados. Mas nesse ínterim, não se vive, nada se colhe desse tumulto temporal, nesse desequilíbrio espírito-corporal.

Quando ao crepúsculo é impossível se voltar ao frescor do amanhecer.

Cada dia é um dia-vida.

Após o crepúsculo se amortece a luz, anoitece; é um fato inevitável.

Contudo, lembranças e sonhos ressurgem conforme a brisa perfumada desperta as auroras.

Já que não posso recomeçar o dia, me contento com as memórias, e nelas, sonhos antigos se renovam com cores e perfumes da temporada; da nova estação; do dia recém-nascido...

Imaginariamente.

Esse sol generoso que brilha

Com seu olhar cálido me fita nesse entardecer

Acorda sonho encantado, quase mito,

Há muito adormecido.

Minhas pupilas vívidas,

Revividas, se dilatam na busca que as suscita.

Uma aventura? Um caso?

Um ficar?

Um novo amor?...

Uma nova oportunidade de ser feliz.

Não sei!...

O dia passando, e eu, nessa encruzilhada

Olhando o céu, além... além.

E uma voz, em mim, me diz:

“Ainda há tempo! Ainda há tempo!”

Vai Raimundo, vai!

E nada.

Nem rima, nem solução.

Hoje, senti no seu sorriso bem mais do que educação e mera formalidade; vi prazer nítido, íntimo, de felicidade.

Que vontade de beijá-la!...

Maldita fidelidade!

... medo de, com minha sede, secar a fonte.

A expectativa daquele orgasmo...

_ Nós o pressentimos _

O pânico, o deleite _ êxtase duplo _

O tédio, depois a realidade.

Que adormecer!...

Transe.

O que dissemos

Com silêncios e palavras

Entre risos e olhares,

O gozo mudo a gritos agudos,

Silenciosamente engolidos

Com o amargo sal

Do beijo detido

Já no seu salivar explosivo

De calor não sentido

No abraço não dado

Dos sussurros inauditos,

Já não sei.

Cada instante é um instante

Cada gesto uma magia.

Que vontade de beijá-la!

Hoje; hoje era o dia.

Sobre o amor...

O que dissemos?!...

“...Tinha medo de morrer e, em tal instante, descobrir nunca ter vivido, nunca ter visto a luz do dia. Agora, nos seus olhos, Sol, vejo sol, e tenho medo de morrer sem antes sentir seu calor.”

“Eu seria tua; eu quero ser tua! Eu quero ser eterna, mas...”.

_ Uma voz nos lembra que estamos em publico _

“Você é um poeta... Eu seria sua, eu seria!

Meu Deus, Eu seria feliz! Meu Deus! Mas...

Jesus, eu sou casada, muita bem casada; você é casado!

Infelizmente eu sou... Se eu não fosse!... Não, eu não posso!”

Eu nunca hesitei diante de uma mulher,

Mas por ela minhas pernas tremem,

Perto ou longe, minha voz falha.

Mas naquele instante, mirando nos seus olhos, eu jurei a mim mesmo,

Por nós dois, que faria de nós, eternos.

Que bom vê-la! Que alegria!

Que cena fantástica é a sua imagem, sua presença, seus movimentos...

Radiante fluido de essência de vida... _ Sol!

Seu nome é Sol.

“Não gosto que me chamem “Solange” _ ela diz _, meu nome é “Sol!”

Eu achei engraçado.

Ela então quis me dar um novo nome: “Rái!

Você vai se chamar, Rái.! Meu poeta.”

Eu achei engraçado, e aceitei.

_ Então, farei versos pra você todos os dias, Pensei.

Ela então me batizou.

E ao banhar-me com seu olhar de luz, me sorriu,

E lançou sobre mim uma oração, ou talvez um hino,

Um poema, uma poeira de luz;

Um espírito-santo- amém!

Uma ave-maria-cheia-de-graça...

Um sopro-divino-de-vida-amor!...

Uma salve-rainha-de-misericórdia...

Um bem-vindo...

Uma extrema-unção?!...

Sei lá!

E eu renasci.

E ela se se eternizara em mim, Sol!

Naquele dia escrevi versos e chorei.

Chorei e escrevi.

Cantei.

Daí, eu comecei a escrever sobre meus sentimentos.

Um dia, ela leu um pequeno trecho de um texto no qual eu quisera falar do meu amor,

Mas eu sei, há muito ela lia meus pensamentos.

Ela quis saber quem o escrevera e que mulher de tão admirável beleza teria mérito à tão eloqüentes elogios.

_ Você, eu disse.

Ela gostou.

Daí, todos os pensamentos que brotam da minha emoção, no meu instante de dedicação, eu os escrevo. Todos os dias eu me dedico um tempo para nós dois. Como fosse o nosso momento de amar. Hora de namoro.

Todo dia escrevo

Todo dia a namoro

Todo dia a amo

Todo dia nos eternizo.

Todo dia, todo dia...

Eternamente.

Debruço-me no que extraio e retenho de sua presença.

Tua imagem é meu campo, meu horizonte, minha nuvem, meu céu infinito, meu passeio, minha viagem, minha busca, minha fome, minha aventura, meu desatino, minha relva, meu descanso, minha paz...

Minha fonte.

Meu piano;

Onde minhas mãos leves passeiam;

E meus dedos deslizam fazendo nascer sonoros poemas.

_ pérolas da mente a acariciar-te _,

Adornam teu corpo de dourados pensamentos;

Versos céleres de um céu escarlate pela tempestade de desejos ressoando

Apelos do murmúrio divino da essência luminosa que lançaste em mim.

Agora somos eternos!

Eu sou teu; tu és minha, Sol.

Era de manhã

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